Estava uma noite quente para tomar vinho tinto, mas, que diabos, todas as noites eram quentes demais para tomar vinho tinto naquela cidade, e a ocasião pedia uma certa solenidade. Taça na mão, arrumava a casa. O novo disco daquela banda que adorava e não ouvia havia tempo tocando no volume 12, uma ousadia para o horário, já eram mais de dez da noite.
Numa das idas e vindas pelo corredor, olhou de soslaio o espelho. Parou abruptamente. Voltou dois passos para poder olhar de novo, com um pouco mais de calma. O espelho, esse companheiro implacável, que não deixava passar nada. Encaminhou-se para perto dele.
Encarou-o nos olhos.
Lembrou de quantas vezes havia se prostrado diante dele, para assistir em silêncio ou ruidosamente às lágrimas descerem em cascata, manchando o rosto do preto do rímel. Quantas horas deixara-se quedar naquela imobilidade triste, admirando cada ruga, cada vinco, cada inchaço se formar e se mutar, enquanto o desespero se esvaía inutilmente, pela roupa, pelo ralo da pia, na toalha manchada, no papel higiênico com que assoava o nariz.
Colocou a taça na bancada, tirou a roupa, soltou os cabelos, tirou a maquiagem que ainda restava depois do dia inteiro, aproximou-se mais um pouco, inclinando o tronco sobre a pia, até chegar bem perto da imagem que a fitava na direção oposta. Sorriu. Sem deixar de se encarar, forçando uma intimidade desconcertante, mas necessária, esticou o braço, alcançou a taça, trouxe ela para perto da imagem e fez um brinde a si própria.
Segunda-feira
14.4.08 - Curtas
Com tudo na vida é possível, às vezes preciso, acostumar-se. A tudo na vida é possível, muitas vezes desejável, se adaptar. Tudo na vida pode e quase sempre deve ser aprendido. Inclusive a felicidade.
Sabedoria de verdade é, mesmo após duros maus tratos, ainda acreditar a ponto de defender perante duvidosos ou incrédulos. Ou então é burrice irremediável.
É apenas o ponto de vista o que faz o filho-da-puta. Por isso até o mais bondoso e cândido ser humano pode ser (certamente é) filho-da-puta na opinião de alguém. É isso mesmo. Tire esse ar de ser magnânimo e eticamente superior do rosto!
Nem tudo, de fato quase nada, acontece por sua causa ou tem a mínima relação com você. Ainda bem...
Sabedoria de verdade é, mesmo após duros maus tratos, ainda acreditar a ponto de defender perante duvidosos ou incrédulos. Ou então é burrice irremediável.
É apenas o ponto de vista o que faz o filho-da-puta. Por isso até o mais bondoso e cândido ser humano pode ser (certamente é) filho-da-puta na opinião de alguém. É isso mesmo. Tire esse ar de ser magnânimo e eticamente superior do rosto!
Nem tudo, de fato quase nada, acontece por sua causa ou tem a mínima relação com você. Ainda bem...
17.4.08 - Desafio aceito (e repassado)
Aceitei o desafio da Simone Iwasso! De início pareceu-me impossível, mas, engraçado, percebi que foi até fácil. Trata-se da lista de oito coisas que quero antes de morrer. Algumas são difíceis, outras talvez (certamente?) impossíveis, mas sonhar não custa nada...
Ah! Não é em ordem, por isso não numero, d'accord?
- Ter uma família para chamar de minha
- Assistir ao Woody Allen tocar clarineta com sua banda de jazz no hotel Carlyle, em NY. Depois seguir num passeio pelos lugares da cidade que ele eternizou em seus filmes e terminar a noite vendo o dia amanhecer, tendo como cenário a vista da ponte do Brooklin
- Visitar Japão, Índia e Rússia
- Falar francês bem
- Aprender a cozinhar
- Ter a minha casa, o meu canto (com a minha família, naturalmente)
- Perceber que a consciência ambiental se tornou parte do cotidiano das pessoas
- Escrever ao menos um livro e plantar muitas árvores
E repasso o desafio a Tati, Ricardo, Mayna, Bruno, Kika, Mila, Zanom (esses dois últimos fotologueiros) e Fernando.
Ah! Não é em ordem, por isso não numero, d'accord?
- Ter uma família para chamar de minha
- Assistir ao Woody Allen tocar clarineta com sua banda de jazz no hotel Carlyle, em NY. Depois seguir num passeio pelos lugares da cidade que ele eternizou em seus filmes e terminar a noite vendo o dia amanhecer, tendo como cenário a vista da ponte do Brooklin
- Visitar Japão, Índia e Rússia
- Falar francês bem
- Aprender a cozinhar
- Ter a minha casa, o meu canto (com a minha família, naturalmente)
- Perceber que a consciência ambiental se tornou parte do cotidiano das pessoas
- Escrever ao menos um livro e plantar muitas árvores
E repasso o desafio a Tati, Ricardo, Mayna, Bruno, Kika, Mila, Zanom (esses dois últimos fotologueiros) e Fernando.
3.3.08 - Feliz inferno astral!
- Parabéns!
- Ããããããhn?!
- (silêncio constrangedor). Não é seu aniversário hoje?
- Não! (entre gargalhadas) Meu aniversário é daqui a um mês! Mas como você conseguiu errar? É dia 1º de abril, ninguém esquece, mil piadas e tal...
- Putz... Anotei 1º de março... Já é a segunda vez que faço isso, acredita? Da outra vez foi com a minha antiga chefe. Anotei 9 de março, mas era 9 de abril.
- E além do mais a gente é do mesmo signo, pô. Arianos! Eu jamais poderia fazer aniversário em 1º de março e ser ariana.
- É mesmo... Tinha esquecido... Deve ser algo contra o mês de abril no meu subconsciente!
- Pôxa, mas quanto tempo! Que bom falar com você...
- É mesmo...
- E ainda bem que você ligou adiantado, né. Pior seria ligar dia 1º de maio.
- É verdade... Com um mês de antecedência, eu ainda posso te desejar feliz inferno astral!
- É... Não precisava me lembrar disso...
- (silêncio constrangedor)
- (muxoxo inaudível)
- Ããããããhn?!
- (silêncio constrangedor). Não é seu aniversário hoje?
- Não! (entre gargalhadas) Meu aniversário é daqui a um mês! Mas como você conseguiu errar? É dia 1º de abril, ninguém esquece, mil piadas e tal...
- Putz... Anotei 1º de março... Já é a segunda vez que faço isso, acredita? Da outra vez foi com a minha antiga chefe. Anotei 9 de março, mas era 9 de abril.
- E além do mais a gente é do mesmo signo, pô. Arianos! Eu jamais poderia fazer aniversário em 1º de março e ser ariana.
- É mesmo... Tinha esquecido... Deve ser algo contra o mês de abril no meu subconsciente!
- Pôxa, mas quanto tempo! Que bom falar com você...
- É mesmo...
- E ainda bem que você ligou adiantado, né. Pior seria ligar dia 1º de maio.
- É verdade... Com um mês de antecedência, eu ainda posso te desejar feliz inferno astral!
- É... Não precisava me lembrar disso...
- (silêncio constrangedor)
- (muxoxo inaudível)
4.3.08 - O amor, o casamento, as coisas e o gato
Tinha um sonho desde criança: encontrar um grande amor.
Era um sonho assim meio abstrato porque não sabia realmente o que vinha a ser isso, ou seja, não sabia como identificar um grande amor nem se caísse dos céus no seu colo. Imaginava vagamente, porém, que se materializaria numa pessoa com quem ia querer ficar junto para sempre - e vice-versa. E bastava.
Cresceu, apaixonou-se e se desapaixonou algumas vezes, até que, bam!, achou que tinha encontrado o tal grande amor. Como não sabia o que era realmente, acreditou que aquele era ele. Depois de um tempo, o grande amor quis casar. Embora nunca houvesse pensado nisso, ponderou que, já que era esse o tal grande amor, não custava assinar um contrato para ratificá-lo perante a lei, tornando-o, assim, oficial. Casou.
Menos de dois anos depois, descobriu-se sem amor, sem casamento, apenas com um papel na mão. O único amparo veio então do gato, que ficou, e das coisas que restaram: o armário caro do quarto , comprado com sacrifício, os móveis da sala, escuros e modernos, nada a ver, o travesseiro perfeito, encontrado depois de muita procura, e o pote de vidro cheio de arroz, nunca soube bem por quê não conseguia largá-lo, talvez fosse um inexplicável apego sentimental.
Nada mais natural, portanto, que tenha levado as coisas e o gato consigo quando encontrou, agora sim, tinha certeza, pela segunda vez, o verdadeiro grande amor. Mesmo ciente de que ainda desconhecia completamente o que seria isso, assegurou a si mesmo que era ele, o primeiro fora apenas um erro de percepção, uma miopia sentimental.
Mais uma vez, o grande amor quis casar. E, ainda que continuasse sem entender por que diabos um fenômeno estava sempre atrelado ao outro e que se recusasse a acreditar que o casamento fosse uma condição sine qua non do grande amor, uma característica inegável a identificá-lo, pensou: ora, não é um bicho de sete cabeças, e agora é à vera, é aquele do sonho. Casou.
Carregou armário caro, móveis da sala modernos e escuros, travesseiro perfeito, pote cheio de arroz e gato para a nova vida, esperando lhes dar o sentido que, equivocadamente, hoje sabe, achava que não tinham por si mesmos.
Menos de dois anos depois, descobriu-se novamente sem amor, sem casamento, com um outro papel na mão, do qual precisava se livrar. Sobreviventes, ao seu lado, fiéis mesmo, apenas as coisas e o gato.
Alguns até tentaram ponderar que era preciso desapegar-se. Será que aquilo tudo não estava carregado de energia negativa, dando azar ou coisa assim? Será que a culpa não era do pote cheio de arroz, do armário ou, bem provável, do gato?
Mas já tinha virado uma questão de honra levá-los para onde quer que fosse. Era o que restava, o que resistia, a raiz da planta morta que teimava em ficar presa à terra.
Cabeça no travesseiro perfeito, armário caro numa parede estranha, pote cheio de arroz na nova cozinha, contemplando os móveis escuros e modernos um tantro deslocados numa sala em outro estilo, pensou, pensou e chegou finalmente à sua primeira definição sobre o tal grande amor, aquele com o qual sempre sonhara: não sobrevive a dois anos de casamento e certamente é menos durável que um lindo armário de quarto, móveis para a sala, um travesseiro perfeito, um pote de arroz e um gato.
Levantou, abriu o pote e usou todo o arroz para fazer um risoto.
Era um sonho assim meio abstrato porque não sabia realmente o que vinha a ser isso, ou seja, não sabia como identificar um grande amor nem se caísse dos céus no seu colo. Imaginava vagamente, porém, que se materializaria numa pessoa com quem ia querer ficar junto para sempre - e vice-versa. E bastava.
Cresceu, apaixonou-se e se desapaixonou algumas vezes, até que, bam!, achou que tinha encontrado o tal grande amor. Como não sabia o que era realmente, acreditou que aquele era ele. Depois de um tempo, o grande amor quis casar. Embora nunca houvesse pensado nisso, ponderou que, já que era esse o tal grande amor, não custava assinar um contrato para ratificá-lo perante a lei, tornando-o, assim, oficial. Casou.
Menos de dois anos depois, descobriu-se sem amor, sem casamento, apenas com um papel na mão. O único amparo veio então do gato, que ficou, e das coisas que restaram: o armário caro do quarto , comprado com sacrifício, os móveis da sala, escuros e modernos, nada a ver, o travesseiro perfeito, encontrado depois de muita procura, e o pote de vidro cheio de arroz, nunca soube bem por quê não conseguia largá-lo, talvez fosse um inexplicável apego sentimental.
Nada mais natural, portanto, que tenha levado as coisas e o gato consigo quando encontrou, agora sim, tinha certeza, pela segunda vez, o verdadeiro grande amor. Mesmo ciente de que ainda desconhecia completamente o que seria isso, assegurou a si mesmo que era ele, o primeiro fora apenas um erro de percepção, uma miopia sentimental.
Mais uma vez, o grande amor quis casar. E, ainda que continuasse sem entender por que diabos um fenômeno estava sempre atrelado ao outro e que se recusasse a acreditar que o casamento fosse uma condição sine qua non do grande amor, uma característica inegável a identificá-lo, pensou: ora, não é um bicho de sete cabeças, e agora é à vera, é aquele do sonho. Casou.
Carregou armário caro, móveis da sala modernos e escuros, travesseiro perfeito, pote cheio de arroz e gato para a nova vida, esperando lhes dar o sentido que, equivocadamente, hoje sabe, achava que não tinham por si mesmos.
Menos de dois anos depois, descobriu-se novamente sem amor, sem casamento, com um outro papel na mão, do qual precisava se livrar. Sobreviventes, ao seu lado, fiéis mesmo, apenas as coisas e o gato.
Alguns até tentaram ponderar que era preciso desapegar-se. Será que aquilo tudo não estava carregado de energia negativa, dando azar ou coisa assim? Será que a culpa não era do pote cheio de arroz, do armário ou, bem provável, do gato?
Mas já tinha virado uma questão de honra levá-los para onde quer que fosse. Era o que restava, o que resistia, a raiz da planta morta que teimava em ficar presa à terra.
Cabeça no travesseiro perfeito, armário caro numa parede estranha, pote cheio de arroz na nova cozinha, contemplando os móveis escuros e modernos um tantro deslocados numa sala em outro estilo, pensou, pensou e chegou finalmente à sua primeira definição sobre o tal grande amor, aquele com o qual sempre sonhara: não sobrevive a dois anos de casamento e certamente é menos durável que um lindo armário de quarto, móveis para a sala, um travesseiro perfeito, um pote de arroz e um gato.
Levantou, abriu o pote e usou todo o arroz para fazer um risoto.
5.3.08 - Afeto
Ah, as coisas que o mundo faz sem sentir e me afetam, me afetam, me afetam...
Não são elas que me afetam, sou eu que me afeto nelas.
E torna-se um afeto tão forte, que insisto em senti-las, procuro, provoco a mim mesma.
Ela se tornaram o vício dos meus pequenos sofrimentos.
Preenchem segundos de angústia, até que percebo sua inutilidade.
E me desafeto.
Não são elas que me afetam, sou eu que me afeto nelas.
E torna-se um afeto tão forte, que insisto em senti-las, procuro, provoco a mim mesma.
Ela se tornaram o vício dos meus pequenos sofrimentos.
Preenchem segundos de angústia, até que percebo sua inutilidade.
E me desafeto.
11.3.08 - Pffffffffffffffffffffffffffff
Às vezes me cansa muito ser eu...
Não tem uma vidinha mais fácil dando sopa por aí, não?
Aliás, lembrei de uma pessoa que dizia sempre isso, ou algo parecido, ao que eu respondia, com pretensa sabedoria de botequim: "se não fosse assim, não seria você". E não é que sabedoria de botequim pode ser bem sábia?
Não tem uma vidinha mais fácil dando sopa por aí, não?
Aliás, lembrei de uma pessoa que dizia sempre isso, ou algo parecido, ao que eu respondia, com pretensa sabedoria de botequim: "se não fosse assim, não seria você". E não é que sabedoria de botequim pode ser bem sábia?
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